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Sui hippie generis

Alguma vez o amigo leitor já teve a sensação de ser um ímã de atrair figuraças – e vou usar “figuraças” por que podia muito bem usar a expressão “malucos” no lugar. Pois é, tive essa sensação um dia, há muito tempo, quando voltava a pé para minha casa depois de ter ido até um lugar no centro da cidade para cortar o cabelo, antes que passassem a me confundir fácil com a Maria Bethânia devido ao comportamento de se tornar uma piaçava que ele tem.

No trajeto de ida, do outro lado da avenida por onde eu ia, um pouco mais à frente, ia um casal de hippies. “Woodstock ainda está vivo”, pensei. Mas o juízo que havia feito daqueles dois não era correto. Era até resumido demais. Era pitoresco, isso sim. Falavam alto. Acho mesmo que gritavam. E finalmente pude entender o que se passava naquela comunicação: a hippie carregando um abacaxi pela coroa, berrava pro hippie que ia mais à frente dela algo como uma bronca dessas que só namorada ou esposa dá em público, normalmente por alguma bobagem.

E era. Pelo menos a deles era uma discussão que parecia bem sem fundamento. Continuei seguindo, do outro lado da rua, mas sem deixar de observar -e vez ou outra baixando o olhar-fingindo não ver aquela D.R. a céu aberto.

Dali a pouco, a mulher faz uma pausa no monólogo, cata o abacaxi pela coroa como um gangster que segura uma garrafa para usar como arma, berra um “eu to falando com você!” e… >POF!!<, o abacaxi pega certeiro entre os ombros do cara, que chega a curvar o corpo com a força do lançamento e o impacto do objeto pouco convencional usado pra fins pouco pacíficos.

Reformulei o pensamento: “paz e amor é para os fracos”…

Após aquela belezura de manifestação de amor ao próximo e que provou que o diálogo é essencial para tudo nessa vida, surge o segundo figura desse dia, digno de um fechamento de texto e de um episódio sui generis: tou andando pela Rui Barbosa quando me surge do lado a figura, sabe-se-Deus-de-onde de outro hippie. Mas esse era diferente. O cara estava numa bicicleta daquelas tipo trilha, com suspensão nas duas rodas, sabe? Daquelas que com certeza, custaram muitos e muitos badulaques de artesanato, caso o sujeito a tenha comprado dessa forma, ou caso a tenha mesmo comprado.

Daí o cara emparelha comigo, que estava andando a pé, na calçada:

-Ô irmão, tu num me descola um [cigarro] careta aí… na facilidade?
-Vou ficar te devendo. Eu não fumo, não, hein?…
-Faz bem… Eu tô tentando parar…

Olhei praquela figura meio sem acreditar no que eu tava ouvindo. Devia estar com uma cara bem canhestra, por que aquele filho da contracultura tratou de sair dali rapidinho, rolando suave sobre as rodas da bicicleta de última geração, rua abaixo… Não sem tempo de formular meu último pensamento: “um hippie usando uma bike dessas? O sonho acabou mesmo? McLuhan… eu odeio você e essa sua aldeia global!”. Tornei a andar, antes que me aparecesse uma outra figuraça dessas pra colar no “Álbum do inusitado” da minha vida.

PS: tem também aquela vez que eu tirei a Voz do Brasil do ar. Mas isso já é causo pra uma outra história…



  1. [...] This post was mentioned on Twitter by manu Barem. manu Barem said: RT @vacaazul No Vaca Zine @francelino sobre Hippies e afins http://tinyurl.com/ycn4bcy Vaca Azul Camaradas Adoráveis [...]