Nesse período de eleições, transparece nas propagandas dos candidatos a visão política corriqueira sobre a habitação de interesse social. A linguagem simplificada e rasa do marketing torna visível que o imperativo dos números sobrepõe-se à preocupação com a qualidade das propostas, uma vez que a necessidade de aquecer o mercado imobiliário e prover moradia para a população carente combina com a conveniência política de anunciar no horário eleitoral que aquele parlamentar “trouxe 2.000 casas” para sua cidade. Nesse terreno sobra pouco espaço e atenção tanto para o projeto arquitetônico quanto para a discussão sobre a implantação desses projetos no tecido urbano.
Sabemos hoje que as políticas habitacionais dos anos 60 resultaram em um profundo agravamento de problemas sociais, como é o caso emblemático da Cidade de Deus e da Vila Kennedy, no Rio de Janeiro, que tiveram a violência como subproduto de uma política de exclusão. A política habitacional atual cuida para manter famílias desalojadas de áreas de risco no mesmo bairro onde estavam, evitando acabar com elos de vizinhança e núcleos familiares estabelecidos. No entanto, poucos projetos avançam nas propostas ao ponto de confrontar o isolamento criado pela especulação imobiliária, trazendo as famílias de baixa renda para terrenos mais centrais, providos de serviços de qualidade.
O arquiteto chileno Alejandro Aravena – ganhador do Leão de Prata na Bienal de Arquitetura de Veneza de 2008 e escolhido em 2004 pela Architectural Record como um dos dez profissionais com maior projeção na vanguarda arquitetônica – vem fazendo isso com seu escritório Elemental, e em duas entrevistas recentes explica sua compreensão do tema e como lida com ele em suas propostas:
“As famílias pobres se mudam para as cidades por uma razão muito clara: as cidades concentram oportunidades. Quando você está bem localizado, está inserido na rede de oportunidades: oportunidade de trabalho, de educação, de saúde, de transporte.
As pessoas que mais necessitam da rede de oportunidades estão excluídas dessa rede. Demoram duas horas para chegar até onde estão concentradas as oportunidades. Temos que inserir as famílias no local que reúnem as oportunidades”
(Alejandro Aravena, em entrevista para a Folha de São Paulo).
“A pergunta importante quando se trata de investimento social desse tipo não é quantos metros quadrados, quantas habitações. O que importa é onde estão as famílias, se elas estão tirando partido da rede de oportunidades que a cidade lhes oferece, se gastam pouco dinheiro e tempo com transporte, se as escolas localizadas próximo de suas casas têm bons professores e são acessíveis aos seus filhos, se há centros de saúde com bons profissionais e locais de recreação perto.”
(em entrevista para a Revista Projeto).
Naturalmente essa proposta enfrenta muitas dificuldades, e talvez a primeira delas seja o preço dos terrenos. A solução do escritório chileno parte para o adensamento, para viabilizar economicamente, mas foge do formato de prédios verticais, uma vez que outro princípio seguido nos projetos é o de deixar espaço para os moradores expandirem a casa e valorizarem seu imóvel. O mote “é melhor fazer meia casa boa do que uma casa ruim” esconde humildemente outro conceito encontrado no projeto: o empoderamento social.
“O poder é exercido através da capacidade de agir para alcançar objetivos que dão sentido à existência humana. Nessa perspectiva o poder se caracteriza enquanto um fenômeno social que é estabelecido tanto por instituições, como pelas relações entre os indivíduos em seu cotidiano”
(Chris Mello, Jornalista, para seu blog no Estadão).
Ao entregar a casa preparada para futuras ampliações ao gosto do morador, não somente se economiza e viabiliza uma edificação com ambientes maiores e com uma maior probabilidade de valorização com o tempo, como transforma a casa em uma plataforma para o cidadão construir e se ver dono do próprio futuro. A política habitacional passa a ser mais completa, a valorizar o investimento feito, econômica e socialmente.
Recentemente ouvi de uma atendente de video-locadora que, em sua visão, arquitetura era uma profissão “muito chique”, e havia sugerido a uma amiga que não adquirisse uma casa da EMHA (Agência Municipal de Habitação de Campo Grande) pois “naquelas casas não havia arquitetura”. Não houve meios de explicar a ela que habitação popular era arquitetura tanto quanto as outras, mas hoje relembro o episódio avaliando que ela tinha motivos para pensar desta forma. O papel social da arquitetura perdeu crédito durante nossa geração, dando-se muita atenção à arquitetura de autor, aos chamados “Starchitects”, Arquitetos-Estrela, e suas obras monumentais e escultóricas. Para resgatar esse valor fundamental, é preciso mais inovação nas propostas de arquitetura de interesse social e de urbanismo, especialmente no país. Entendo que o tema tenha grande impacto na vida da sociedade e que deva ser proposto sempre com muito estudo e pesquisa, mas o conservadorismo nas ações muitas vezes soa mais como covardia ou desinteresse do que cautela. Precisamos estudar e adotar as novas tecnologias que estão no mercado, ousar nas propostas, combater com maior urgência problemas atuais já identificados. Os vazios urbanos da cidade de Campo Grande e a especulação imobiliária são vilões urbanos nomeados, temos livros, estudos acadêmicos, instrumentos oficiais criados para combatê-los, mas vemos processos se arrastarem por anos e até vermos alguma mudança nas ações políticas já teremos novos vilões, decorrentes destes.
Não se pode afirmar que os projetos da Elemental sejam “o caminho a ser seguido” (mesmo porque as soluções devem sempre ser locais), nem sabemos como reagirá o mercado e a comunidade instalada nos condomínios às suas proposições. Tanto os sucessos do empreendimento quanto as falhas que surgirem só serão compreendidos e estudados por conta da experiência prática.
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